O governo brasileiro considera expulsar do país um funcionário dos EUA, como ato de reciprocidade depois que um delegado da Polícia Federal foi informado que deveria sair imediatamente dos EUA.
O ICL Notícias apurou que o tema está sendo tratado internamente. Mas diplomatas apontam que é “bem provável” que a decisão de uma expulsão seja tomada. Negociadores consultados pela reportagem se mostraram indignados com a atitude da Casa Branca e consideraram o gesto como um “péssimo sinal”.
A situação é considerada por antigos e atuais funcionários da Justiça no Brasil como uma das piores crises na cooperação policial entre os dois países.
Ao deixar a Alemanha, nesta terça-feira, Lula também sugeriu que essa opção poderia ser considerada. Se houve um abuso das autoridades americanas com nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com os deles no Brasil”, disse. “Queremos fazer as coisas da maneira mais correta possível, mas não podemos aceitar esse tipo de ingerência que alguns personagens querem ter em relação ao Brasil”, completou.
Na segunda-feira, o governo de Donald Trump usou as redes sociais para anunciar que “solicitou a expulsão” de um “funcionário brasileiro” nos EUA. Fontes extra oficiais indicaram que o caso envolve Marcelo Ivo, delegado da Polícia Federal em Miami e que teve uma atuação na operação que prendeu Alexandre Ramagem, ex-chefe da Abin e que está foragido nos EUA.
Ivo deve embarcar nesta terça-feira, em direção ao Brasil. Já Ramagem, depois de uma pressão de bolsonaristas, acabou sendo solto e aguarda seu pedido de asilo nos EUA.
“Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos EUA. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro envolvido deixe o nosso país por tentar fazer isso”, afirmou o Departamento de Estado norte-americano, nas redes sociais.
A alegação foi de que Ivo tentou convencer as autoridades americanas que o caso de Ramagem era de deportação por conta de um visto vencido, e não de extradição – o que envolveria uma consideração do processo legal contra ele pelo STF.
No momento da prisão de Ramagem, a atitude da PF de dizer que o ato foi resultado de uma cooperação entre os dois países irritou a ala mais radical da Casa Branca.
Publicamente, governo dos EUA não explicou quem seria expulso e nem o motivo. Mas o incidente ocorre dias depois da prisão – e soltura – de Alexandre Ramagem (PL-RJ) nesta semana por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE).
O fato gerou uma mobilização de bolsonaristas que, com contatos nos EUA, conseguiram convencer a Casa Branca a liberar o ex-diretor da Abin.
Não por acaso, o anúncio do Departamento de Estado sobre Ivo gerou uma comemoração imediata por parte de Eduardo Bolsonaro. “Perdeu mané”, escreveu o ex-deputado nas redes sociais.
Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Figueiredo e aliado do bolsonarismo, também identificou o funcionário expulso como Marcelo Ivo. “Esta é a maior crise entre Brasil-EUA desde a época da Magnitsky”, disse.
Ambos agiram para conseguir que Washington aplicasse sanções e tarifas contra o Brasil.
Revanche de enviado de Trump
Agora, o caso amplia o desgaste entre os dois governos. No mês passado, Darren Beattie, enviado do governo Trump para o Brasil, teve seu visto revogado para a viagem que iria fazer ao país. Para Brasília, houve “má-fé” por parte do representante americano ao solicitar a autorização e não revelar, nos documentos, que o objetivo era o de visitar Jair Bolsonaro na prisão.
Agora, teria sido Beattie quem liderou a pressão para que Ramagem fosse solto e para que o delegado da PF tivesse seu visto revogado.
As medidas ampliam o mal-estar entre os dois governos que, até agora, não conseguiram encontrar uma data comum para um encontro entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump. Enquanto os desentendimentos aumentam, parece ficar cada vez mais distante a chance de uma viagem do brasileiro à Casa Branca.



