documentário do ICL revela alternativa às big techs


Por Leila Cangussu

O novo documentário do Instituto Conhecimento Liberta (ICL), que estreia no dia 12 de abril, não começa na China. Começa na Argentina. É de lá que vem a pergunta que empurra a história para outro lugar.

Durante a divulgação de Vai pra Argentina, carajo!, lançado em 2025, a equipe encontrou dificuldades para fazer o filme circular nas plataformas digitais. Anúncios foram barrados, o alcance caiu e não houve explicação clara para as restrições.

“Quando fomos lançar o documentário sobre a Argentina, esbarramos no monopólio das big techs e tivemos muita dificuldade em anunciar”, conta a diretora Juliana Baroni. “O Eduardo decidiu então buscar uma alternativa. Foi isso que nos levou até a China”.

Na conversa com o ICL Notícias, ela deixa claro que a viagem não começou como interesse por um país. Foi uma resposta a esse bloqueio. A partir daí, o filme passa a girar em torno de outra questão: quem controla a informação hoje e o que existe fora desse modelo.

Terceiro filme muda o foco da série

A série que termina com o lançamento de Vai pra China companha as viagens do economista Eduardo Moreira por países que ajudam a entender disputas maiores. Cada destino traz um recorte diferente, mas todos partem da mesma lógica: ver de perto e perguntar sem filtro.

Em 2024, a equipe esteve em Cuba, olhando para os efeitos do bloqueio econômico. Em 2025, foi à Argentina, em meio às mudanças implementadas pelo governo de Javier Milei. Agora, na China, o eixo muda.

“Cada documentário é um universo único. O que os une é a curiosidade do nosso protagonista. Cada um deles tem um tema bastante específico. O da China é tecnologia”, diz Juliana Baroni.

A mudança não é só de tema. O ponto de partida também é outro. Em vez de crise ou ruptura, o filme começa com uma pergunta sobre caminhos possíveis.

Ao longo da viagem, essa pergunta se abre. A tecnologia puxa a conversa, mas logo aparecem outras camadas, como cidade, história e formas de viver. O filme cresce conforme a viagem avança.

Juliana Baroni durante as gravações de “Vai pra China”

Primeiros dias expõem barreiras e desmontam estereótipos

A chegada ao país impõe duas coisas de imediato: distância e língua. Não é só um deslocamento geográfico, é também uma mudança de referência.

“Nunca tinha feito uma viagem tão longa”, conta Juliana Baroni. O trajeto incluiu uma escala na Etiópia, o que já abriu outras possibilidades fora do roteiro. Na sequência, vem a língua. Aplicativos ajudam, o inglês também, mas não resolvem tudo.

Para circular, a equipe contou com apoio local. Isso fez diferença no dia a dia, dos deslocamentos ao uso de serviços. Sem isso, a experiência seria outra.

Com os dias passando, o que mais muda não é a logística. É o olhar. “Muitos estereótipos caíram por terra logo de cara”, diz Juliana.

Práticas que, no Brasil, costumam definir a imagem da China aparecem mais como atração para turistas do que como parte da rotina. Ao mesmo tempo, surgem cenas que não fazem parte desse imaginário.

Durante as gravações, a equipe encontrou igrejas, mesquitas e templos budistas e taoístas. A diversidade religiosa aparece no cotidiano e contrasta com a ideia de um país homogêneo.

A comida também entra nessa mudança de percepção. Juliana descreve a gastronomia como uma surpresa, algo que ajuda a desmontar a imagem pronta que se forma à distância.

Tecnologia aparece como estrutura do cotidiano

O documentário percorre quatro grandes cidades chinesas. Em todas, a tecnologia não aparece como novidade. Ela já faz parte da rotina.

Em Xangai, isso fica evidente. A equipe encontrou uma cidade onde a organização chama atenção pelo detalhe. “Eu não vi lixo no chão. Vi robôs fazendo o trabalho de limpeza”, conta Juliana Baroni.

Não é só automação, é integração. Serviços que, em outros lugares, são separados, ali funcionam juntos no mesmo ambiente digital. “Você pede transporte, paga, envia mensagem. Tudo dentro de um único sistema”, diz a diretora. A experiência urbana passa por esse nível de conexão.

Nesse cenário, a tecnologia deixa de aparecer como algo separado. Ela organiza o funcionamento da cidade, da mobilidade ao acesso a serviços.

Passado e inovação convivem no mesmo espaço

Ao lado da tecnologia, a história aparece o tempo todo. Não como cenário, mas como parte da própria experiência.

A equipe visitou um sítio arqueológico com cerca de cinco mil anos e, dias depois, uma fábrica de robôs humanoides. A sequência ajuda a entender o que o filme tenta mostrar.

“O passado e o futuro de mãos dadas”, resume Juliana Baroni.

Essa relação aparece também nos detalhes. Um dos exemplos citados por ela é um artefato cilíndrico usado em rituais antigos, com formato que lembra peças de engenharia atuais, como válvulas e pistões.

A impressão é de continuidade. O avanço tecnológico não surge como ruptura, mas como desdobramento de uma base que segue presente.

Juliana Baroni e Eduardo Moreira durante as gravações de “Vai pra China”

Relação entre Estado e empresas foge ao modelo conhecido

Outro ponto observado durante as gravações foi a forma como se organizam as relações entre Estado, empresas e sociedade.

“O que a gente percebe lá é uma sociedade funcionando de maneira eficiente, mais do que essa divisão entre público e privado”, diz Juliana Baroni

A avaliação, segundo ela, não se encaixa facilmente nas categorias mais usadas no debate brasileiro. O que aparece no cotidiano é um modelo que não se explica apenas por essa separação.

Produção exigiu articulação internacional

Filmar na China exigiu preparação prévia e articulação internacional.

A principal dificuldade apontada pela equipe foi a língua, que impacta desde a comunicação básica até o acesso a serviços e locações. Por isso, o trabalho começou antes da viagem, com uma etapa de pré-produção mais estruturada.

O documentário contou com coprodução internacional, o que ampliou o acesso a entrevistas, espaços e facilitou a logística das gravações. Segundo a equipe, essa articulação foi decisiva para viabilizar o projeto no país.

Série mantém método aberto de gravação

A série não começa com um roteiro fechado. E isso aparece no resultado.

Segundo Juliana Baroni, a equipe chega com uma pergunta, mas não com uma resposta pronta. O caminho vai sendo construído durante a viagem.

“Logo no primeiro dia a gente percebeu que o filme seria maior do que a ideia inicial”, conta

A proposta é registrar o que acontece, sem forçar a narrativa para um ponto específico. O percurso da viagem acaba definindo o próprio filme.

Filme propõe debate a partir do Brasil

Ao final da viagem, o olhar não fica na China. Volta para o Brasil. Segundo Juliana Baroni, o principal impacto do documentário foi deslocar a pergunta.

“O que deu certo lá na China que a gente poderia implementar aqui no Brasil?”

A questão atravessa o filme inteiro, mas não aparece como resposta pronta. Fica como provocação.

O documentário estreia no dia 12 de abril, às 20h, em exibição ao vivo e sem replay, seguida de debate com a participação da própria Juliana Baroni e de integrantes da equipe.

Quem quiser assistir primeiro precisa se inscrever, gratuitamente, para garantir vaga. Depois do filme, a conversa continua com o público — a partir do que foi visto e do que ainda não está claro.





ICL Notícias

Hot this week

Topics

- Patrocinado -spot_img

Related Articles

Categorias Populares

spot_imgspot_img