Por Cleber Lourenço
Uma estrutura organizada de mobilização digital voltada ao uso de inteligência artificial já opera em redes associadas ao pré-candidato Flávio Bolsonaro mesmo antes do período permitido para campanha. Documentos, mensagens e peças de divulgação obtidos pela reportagem mostram que a iniciativa, chamada “Missão Patriota Digital IA”, não se limita à circulação informal de conteúdo político. O material revela uma engrenagem de recrutamento, treinamento e disseminação em rede, com divisão de tarefas, incentivo à replicação em massa e uso combinado de WhatsApp, Telegram e peças visuais padronizadas.
O conjunto analisado pela reportagem indica que a proposta vai além do engajamento espontâneo de apoiadores. As mensagens falam em aprender a usar inteligência artificial para “criar mensagens, responder com segurança e se comunicar com mais impacto”, sugerem o preenchimento de cadastro para “direcionar habilidades para as tarefas certas” e apresentam os participantes como parte de uma “linha de frente”. O grupo também oferece um curso de iniciação em geração de conteúdo com IA por meio de um canal no Telegram, em uma tentativa de transformar simpatizantes em multiplicadores treinados para atuação digital.
A estrutura chama atenção porque combina três camadas centrais de uma operação política nas redes: produção de conteúdo com apoio de IA, formação de base por meio de treinamento e distribuição em cadeia por aplicativos de mensagem. Esse modelo permite ampliar alcance, padronizar narrativas e dar escala à comunicação com aparência de espontaneidade — uma fórmula que, no ambiente digital, vale mais do que muito cabo eleitoral em rua.


Timeline da mobilização
30/10/2023: criação do “Flávio Bolsonaro – Canal de Mobilização”, apresentado como espaço para centralizar e divulgar a mobilização nacional.
18/03/2026: início da ativação mais recente da base, com mensagens de organização interna e convocação de apoiadores.
20/03/2026: primeira chamada estruturada para o projeto de IA, com convite para aprender a criar mensagens e responder conteúdos “direto do celular”.
Março e abril de 2026: abertura de cadastro de voluntários, oferta de capacitação em Telegram e incentivo à replicação coordenada de conteúdo.
Abril de 2026: intensificação do debate público sobre uso de IA em campanhas, com denúncias de conteúdos violentos e desinformativos contra o campo da esquerda.
Para o advogado eleitoral Fernando Neisser, as regras do Tribunal Superior Eleitoral se aplicam independentemente de quem esteja por trás da produção do conteúdo. “O uso de inteligência artificial para fins de campanha eleitoral, pouco importa se feito diretamente pela campanha ou não, é regulado pelo TSE”, afirma.
Ele destaca que a vedação é objetiva em alguns casos: “Deep fake — quando a IA cria a fala ou a imagem de uma pessoa real — é proibida, mesmo que seja propaganda positiva. Não interessa quem faz”.
Neisser chama atenção para a cadeia de responsabilidade: “Um grupo de cidadãos voluntários pode responder por isso. Pode haver responsabilização por abuso de poder, com pena de inelegibilidade dessas pessoas”. E acrescenta o risco máximo: “A depender do impacto, no limite, poderia até levar à cassação da chapa beneficiada por esse tipo de propaganda”.
Sobre os demais usos, ele reforça a obrigação de transparência: “A Resolução 23.610 exige que o uso de inteligência artificial seja explicitado. Há regras específicas para cada tipo de mídia — áudio, vídeo e imagem —”. E conclui: “A indicação de que aquele conteúdo foi produzido com IA é obrigatória. Isso vale para qualquer pessoa, não apenas para campanhas oficiais”.

Sem improviso
A base da mobilização está concentrada em um canal do WhatsApp intitulado “Flávio Bolsonaro – Canal de Mobilização”. O próprio canal se apresenta como espaço para “centralizar e divulgar toda a mobilização” em torno do nome do pré-candidato. Criado em 30 de outubro de 2023, ele reúne mais de 4 mil seguidores e funciona como hub de instruções, convocação e distribuição de peças.
Esse dado é importante porque indica que a estrutura não foi criada às pressas depois da explosão recente do debate sobre IA. O canal já existe há quase três anos e, ao que mostram os materiais obtidos pela reportagem, foi reutilizado e ativado como base de uma nova etapa de mobilização em 2026, agora com a inteligência artificial no centro da operação.
A convocação do dia 20 de março é um dos pontos mais relevantes. Nela, os participantes são chamados a integrar uma frente de uso político da tecnologia. O convite promete ensinar, de forma simples, como usar IA para produzir mensagens, responder ataques e se comunicar de maneira mais eficaz. O fato de a chamada ocorrer semanas antes da intensificação da circulação de conteúdos políticos produzidos com IA ajuda a afastar a hipótese de improviso. Há, ao contrário, sinal de planejamento prévio.
Outro elemento que reforça a ideia de estrutura organizada é o cadastro de voluntários. Em vez de apenas conclamar apoiadores a compartilhar conteúdo, o grupo pede informações para mapear perfis e “direcionar habilidades para as tarefas certas”. A linguagem é típica de coordenação de equipe: identificar quem cria, quem replica, quem reage, quem amplia alcance. Em outras palavras, trata-se de uma tentativa de organizar uma tropa digital com alguma racionalidade interna, e não apenas de jogar mensagem aleatórias para ver o que viraliza.
A reportagem também identificou a oferta de um curso de iniciação em geração de conteúdo com IA por meio de um canal no Telegram. Para Neisser, a existência de treinamento estruturado reforça o caráter organizado da atuação: “Quando há orientação sistemática e padronização de conduta, isso pode ser analisado pela Justiça Eleitoral como parte de uma estratégia coordenada”, diz. O material convida participantes a entrar na plataforma para “aprender IA para a campanha”. Esse ponto é decisivo porque mostra que o grupo não se limita a estimular o uso da tecnologia; ele também oferece um eixo específico de formação. O WhatsApp aparece como espaço de coordenação e mobilização. O Telegram surge como ambiente de treinamento e aprofundamento. A combinação não parece acidental.
O Telegram, nesse arranjo, cumpre função estratégica. É a sala de aula da operação. Ali, a promessa é introduzir apoiadores no uso de ferramentas de IA para geração de conteúdo, algo que reduz a barreira técnica e amplia a capacidade de produção em escala. Em vez de depender apenas de profissionais especializados ou de núcleos restritos de campanha, o modelo tenta espalhar a capacidade de criação por uma base mais ampla. É uma espécie de franquia digital da militância, com tecnologia no lugar do panfleto.
A lógica de disseminação também aparece de forma explícita nas mensagens. À luz do que descreve Neisser, essa etapa é sensível porque amplia o alcance de eventuais irregularidades: quanto maior a rede de replicação, maior o potencial de impacto — elemento considerado pela Justiça Eleitoral na avaliação de abuso de poder. Os participantes são orientados a compartilhar links, chamar outras pessoas e atuar como “multiplicadores”. Em alguns materiais, a orientação é repassar conteúdos para contatos pessoais, inclusive com estímulos para “enviar para 5 amigos”. O mecanismo é conhecido: centraliza-se a ordem, descentraliza-se a distribuição. Assim, a mensagem percorre redes privadas com aparência orgânica, dificultando rastreamento e ampliando capilaridade.
Estética uniforme
O grupo distribui peças visuais padronizadas, com estética nacionalista, linguagem de campanha e referências diretas ao pré-candidato. Em uma delas, um robô estilizado segura um celular com a imagem de Flávio Bolsonaro e um QR Code, ao lado da frase: “A inteligência artificial para fortalecer o Brasil”. A peça resume bem a tentativa de revestir o projeto com linguagem moderna, apelo patriótico e associação direta à candidatura.
Em outra mensagem, os participantes são apresentados como parte de uma missão. O uso de expressões como “linha de frente”, “multiplicador” e “nossa maior arma” ajuda a dar à mobilização um tom de guerra política permanente. O vocabulário cria senso de urgência, estimula disciplina interna e sustenta a percepção de que a disputa nas redes exige organização, lealdade e rápida capacidade de resposta. Em campanha, isso não é detalhe: é método.
O arranjo revelado pelos materiais obtidos pela reportagem aponta, portanto, para uma operação em três eixos. O primeiro é a produção de conteúdo com uso de IA. O segundo é a capacitação de apoiadores para operar essa tecnologia. O terceiro é a distribuição em massa, por meio de uma rede de replicadores acionados em aplicativos de mensagem. A soma desses fatores sugere uma estrutura voltada a ampliar alcance e influência digital com custo relativamente baixo e alta velocidade de propagação.
Nos últimos dias, o uso da Inteligência Artifi entrou de vez no radar do noticiário e da Justiça Eleitoral depois da circulação de vídeos produzidos com IA com conteúdo violento e desinformativo contra o PT e setores da esquerda. Foi nesse contexto que reportagem do jornalista e diretor de jornalismo, Leandro Demori, no ICL Notícias, revelou a circulação de peças que simulavam agressões e estimulavam ataques políticos por meio de conteúdo sintético.
O elo entre os dois episódios é relevante. No caso revelado por Demori e pelo ICL Notícias, a discussão girou em torno do produto final: vídeos falsos, violentos e politicamente orientados. No material agora analisado, o foco recai sobre a engrenagem que antecede esse tipo de conteúdo: formação de base, orientação de tarefas, treinamento em IA e distribuição coordenada.
Procurada pela reportagem, a assessoria do pré-candidato Flávio Bolsonaro negou qualquer relação com o canal e com a mobilização descrita nas mensagens. Segundo a equipe, não há vínculo oficial com o grupo nem com iniciativas de treinamento em inteligência artificial.
O canal usa o nome do pré-candidato, trabalha com identidade visual associada à sua imagem, circula material de apoio à sua candidatura e organiza uma base de mobilização diretamente vinculada ao projeto político que o cerca. Permanece a pergunta que o material inspira: quem opera essa estrutura e em nome de quem?
Fernando Neisser alerta que “a indicação de que aquele conteúdo foi produzido com IA é obrigatória. Isso vale para qualquer pessoa, não apenas para campanhas oficiais”. A frase sintetiza o ponto central: independentemente de quem opere a engrenagem, as regras são as mesmas — e a responsabilização, também.
Esta apuração surgiu de uma denúncia da plataforma denunciei.com, o canal de denúncias anônimo e seguro do ICL. Quer fazer uma denúncia? Acesse denunciei.com





