A teologia da sorte e as bets


Nossa sociedade está mais do que acostumada com os jogos de apostas, atividade naturalizada, culturalmente aceita.

Enquanto a clandestina rinha de galo parece prática das camadas subalternas, as glamourosas e legais corridas de cavalo são vinculadas às elites.

Na paisagem urbana carioca, não é incomum vermos os mototáxis apostarem as suas diárias no final do expediente lançando os dados para testar a sorte.

O jogo do bicho nos subúrbios cariocas é encarado como mania popular. Clandestinidade lúdica, contravenção socialmente aceita no Estado. Os resultados são publicados nos postes.

Sou de um tempo em que crentes vistos saindo das casas lotéricas era motivo de disciplina na igreja, e até exclusão em alguns casos. Inadmissível o mau testemunho relacionado ao jogo de azar. Na síntese das proibições mais explícitas, diziam que crente não fuma, não bebe e não joga.

O mercado de apostas on-line (“bets”) no Brasil

Resultados encontrados numa consulta simples do Google. Não refinei as informações recorrendo às fontes. O objetivo aqui é apenas apresentar um quadro geral para oferecer uma noção da situação atual. Um primeiro olhar superficial sobre o fenômeno. [1]

* 3 em cada 10 brasileiros têm o hábito de apostar em bets.

* O Brasil é o quinto maior mercado global de apostas.

* 46% dos apostadores buscam renda extra e ajuda para pagar contas.[2]

* As apostas tornaram-se um dos principais motores do endividamento das famílias.

* Aproximadamente 4 milhões de beneficiários do Bolsa Família (17% dos cadastrados) enviaram R$ 2 bilhões via Pix para bets em agosto de 2024.[3]

* Visitas a sites de apostas cresceram 237% em 2025, em relação ao ano anterior.

* Em 2026, a presença de patrocinadores master de apostas diminuiu de 19 clubes de futebol (Série A 2025) para 13 clubes.

* A ludopatia (dependência em jogos) é considerada o terceiro vício mais comum no país, atrás apenas do álcool e tabaco, superando 3 milhões de pessoas afetadas.

E os evangélicos com isso?

Presume-se que o fenômeno “não pega” os evangélicos. Por questões morais, entre os evangélicos, difundiu-se que crente não bebe, não fuma e não joga. Isso vale atualmente no contexto do mercado de apostas on-line (bets)?

Apostas valendo dinheiro é pecado, no jargão popular do grupo religioso.

Não é raro termos notícias que pessoas procuram a igreja com a necessidade de libertação das compulsões, entre as quais, não fumar, não beber e não jogar.

Na cultura dos excessos que geram dependências, a igreja evangélica criou uma identidade no país de moderação. Gente que consegue resistir ao primeiro trago, ao primeiro gole e à primeira aposta.

Até que vamos aos dados colhidos numa simples consulta de pesquisa no Google.

Não há imunidade, os evangélicos estão implicados e afetados pelas bets. [4]

Para a “epidemia de apostas” (bets), não há notícia de antídoto comprovadamente eficiente. Os espaços das igrejas evangélicas não são zonas de descompressão imunes à peste.

A epidemia está na igreja, ainda que no seu modo silencioso e envergonhado.

A fé não funciona, neste caso, como antídoto contra os jogos de azar.

* Segundo pesquisa do PoderData, 41% dos evangélicos dizem já ter jogado em alguma bet. No caso de católicos, são 34%.[5]

* Ainda repercutindo a pesquisa PoderData, 35% dos fiéis evangélicos que já apostaram dizem ter se endividado por causa dos jogos.

* A seta aponta para o alto. Dados do PoderData de outubro de 2025 revelam que 41% dos evangélicos já fizeram algum tipo de aposta on-line, um salto significativo em relação aos 29% registrados no ano anterior.

* Entre os que jogam, cerca de 20% dos evangélicos apostam diariamente, superando a média de 14% observada entre católicos.

* Evangélicos jogam menos em loterias tradicionais, como Mega-Sena e jogo do bicho, mas aderem às bets em proporção similar ou superior à população geral.[6]

* Estima-se que 21% dos evangélicos já se endividaram por conta de apostas, um índice superior aos 12% registrados entre católicos.

A busca por dinheiro rápido e fácil contando com a sorte nas apostas está afetando as famílias de trabalhadores de baixa renda, mesmo os que frequentam os cultos nas igrejas evangélicas.

Na paisagem das sociedades digitais, o acesso a jogos de azar on-line está disseminado. Embora haja o repúdio institucional das igrejas cristãs, sabidamente os irmãos que arriscam uma “fezinha” encontram suposta legitimidade e aprovação da “teologia da sorte”.

No reino de Mamom, em que igrejas adeptas à teologia da prosperidade se expandem, a sorte é incensada como bênção e o azar, como maldição. O resto faz parte do jogo.

Segundo matéria na Folha de São Paulo, o tema das apostas provavelmente vai figurar como item das campanhas eleitorais. O governo Lula, com as suas declaradas críticas à regulação das bets, estaria mirando os eleitores conservadores, principalmente os conservadores das comunidades evangélicas.[7]

Hoje o jogo de azar no Brasil é uma questão alarmante de saúde pública que impacta o Sistema Único de Saúde (SUS). O fato de estarmos na igreja não é garantia que temos imunidade para enfrentar esta epidemia de peito aberto.

Pessoas vulneráveis lidam com o problema sofrendo em silêncio porque junto à compulsão anda a vergonha. Ninguém pode saber o quanto perdeu e quando vai tentar correr atrás do prejuízo.

Por igrejas como comunidades terapêuticas em que os afetados pela compulsão do jogo consigam externalizar as suas vulnerabilidades. A escuta na roda de conversa que se transforma em círculo de oração. Sem dedo em riste para apontar pecados e culpas, apenas braços para abraçar e a escuta ativa.

*****

[1] Consulta, busca: O mercado de apostas online (“bets”) no Brasil. Disponível em: https://www.google.com/. Acesso em: 19 abr. 2026.

[2] Datafolha: quase metade dos usuários de bets diz apostar para obter renda extra e pagar contas. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/04/datafolha-quase-metade-dos-usuarios-de-bets-diz-apostar-para-obter-renda-extra-e-pagar-contas.shtml. Acesso em: 20 abr. 2026.

[3] Análise técnica sobre o mercado de apostas online no Brasil e o perfil dos apostadores. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/conteudo/relatorioinflacao/EstudosEspeciais/EE119_Analise_tecnica_sobre_o_mercado_de_apostas_online_no_Brasil_e_o_perfil_dos_apostadores.pdf. Acesso em: 20 abr. 2026.

[4] Consulta, busca: O mercado de apostas online (“bets”) no Brasil. Disponível em: https://www.google.com/. Acesso em: 19 abr. 2026.

[5] 41% dos evangélicos apostam nas bets; católicos, 34%. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poderdata/41-dos-evangelicos-apostam-nas-bets-catolicos-34/. Acesso em: 20 abr. 2026.

[6] 41% dos evangélicos apostam nas bets; católicos, 34%. Disponível em: https://www.poder360.com.br/poderdata/41-dos-evangelicos-apostam-nas-bets-catolicos-34/. Acesso em: 20 abr. 2026.

[7] Lula usa fim da escala 6×1 e crítica a bets para se aproximar de evangélicos e conservadores. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/amp/poder/2026/04/lula-usa-fim-da-escala-6×1-e-critica-a-bets-para-se-aproximar-de-evangelicos-e-conservadores.shtml . Acesso em: 20 abr. 2026.





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